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sexta-feira, 28 de maio de 2010

O pensamento do Dr. Ravic


No romance Arco do Triunfo (1945) o escritor alemão Erich Maria Remarque cria um médico que foge dos nazistas e vive clandestinamente em Paris, 1938, à espera da guerra inevitável. Ravic, um nome falso, destila ironia e profundidade entre um calvados (calvadôs) e outro. O Dr. Ravic , por vezes, é acusado de ser insensível. Uma grande injustiça.

"Nunca ficamos calejados. Apenas conseguimos acostumarmos a muita coisa."

"Onde ficaram as aventuras do coração? Foram assassinadas pelas aventuras sinistras da existência."

"Não sou ateu. Apenas custo a acreditar."


"Também podemos iludir-nos com a realidade. É um sonho muito perigoso."


"A grande aventura dos nossos tempos consiste numa vida tranquila e bem definida."


"Os povos tangidos lentamente para o abatedouro. Certamente as pulgas se salvariam quando o carneiro fosse sacrificado. Como sempre."


"Quando duas pessoas estão juntas nunca sentem frio."


"Seu cabelo encerra mais mistérios que mil perguntas."


"Como pode nosso amor ser perfeito se todas as noites o sono arrebata você de mim?"


"Com um pouco de fantasia qualquer imundície pode transformar-se em prata."


"As mulheres devem ser adoradas ou abandonadas. O meio-termo não serve."


"Tudo já ocorreu dezenas de vezes."


"A morte e o amor encerram todas as justificativas e todos os direitos que existem no mundo."


"Só os vencedores estão cansados. Os vencidos não. O vencedor costuma ficar descuidado."


"Não há combustível melhor para o fogo da paixão do que o cinismo ressequido e a matéria armazenada nos anos críticos da vida."


"A fantasia só precisa de alguns pregos para pendurar seu véu."
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domingo, 16 de agosto de 2009

Um livro

O jornalista (tecla SAP: neo-fascista) Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo (tecla SAP: testa de ferro dos Marinho) lança um livro sobre as falas do presidente da república. Um livro para alavancar a campanha de 2010. Um livro para a classe média alta se esbaldar. Um livro que a humanidade estava esperando.
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quarta-feira, 3 de junho de 2009

Mordidas Sonoras



O vocalista/guitarrista Alex Kapranos, líder de uma das mais bacanas bandas britânicas e uma das preferidas deste blog, o Franz Ferdinand, nem todo mundo sabe, até os 30 anos trabalhava como entregador de fast-food, garçom de vinhos, ajudante de chef, chef e outras profissões correlatas.

Já na banda, saiu em turnê por uns dois anos e registrou os momentos gastronômicos da viagem numa coluna no Guardian, jornal inglês. Daí saiu esse despretensioso e saborosíssimo Mordidas Sonoras, livreto de 140 páginas e um mundo de perspicácia. O rapaz escreve bem mesmo, não só sobre comida, mas sobre a fauna humana que a cerca.
Cool!

Olha só o comentário do inglês, descendente de gregos e que mora em Glasgow, sobre uma visita ao Café Bertaux, em Londres.

Uma Virginia Woolf de vestido com estampa floral está sentada ao lado de um homem de chapéu Panamá. À minha direita, uma jovem designer examina seu portfólio e enfia a colher na perdição folheada de uma torta de morango. Meu prato é uma torre trêmula de frutas deliciosas e creme anglaise. A riqueza de sabores não é obscurecida pela doçura. Framboesas espirram uma claridade ácida no creme de ovos. Não é algo para se comer com pressa, mas uma sensação a ser saboreada em pequenos pedaços, para que nenhuma nuance fuja à oportunidade de ser experimentada.

Bertaux é a antítese das redes de cafeterias. Suas idiossincrasias maltrapilhas não se prestam a cópias ou franquias. E, além disso, o preço é salgado. Eis aí um lugar para levar alguém que você gosta – alguém que aprecie um agrado.
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sábado, 18 de outubro de 2008

Maíra




"Um dia o velho Ambir quis sentir suas criações. Arrotou e lançou o arroto no mundo para ser seu filho. O arroto girou vagaroso pelos ares, navegando no escuro e olhando as coisinhas mais quentes que pulsavam, vivas, lá embaixo. Viu, então, no meio da penumbra, uns seres maiores que se destacavam, imponentes.

Eram árvores esparsas. Desceu numa delas, entrou bem no cerne. Dali de dentro começou a provar o sentir-se das árvores (...)."


É a forma poderosa que Darcy Ribeiro narra o nascimento de Maíra, o deus filho de Deus, irmão do deus Micura.

Poderoso é esse romance da década de 1970, em plena ditadura, em que Darcy mostra em capítulos não lineares, a explosão quase silenciosa do encontro entre brancos, índios e mamelucos.

O Darcy não é indio nem branco. E não é deste mundo, é de vários mundos.
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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Alfred-François


O pátio de Rear Window e o livro


Nos anos 50, Alfred Hitchcock ainda era considerado nos EUA um diretor “comercial” e, pasmem, sem grande valor artístico. Jovens cineastas franceses como François Truffaut iam na contramão. Para eles Hitch era o supra-sumo da arte cinematográfica. O rei dos planos econômicos.
Na década de 60, Truffaut foi mais fundo e entrevistou Hitch por longas horas. Dissecaram toda a obra do cineasta inglês, descrita por completo no maravilhoso livro Hitchcock-Truffaut.
A análise detalhista do francês mais a autocrítica impiedosa do inglês rendem passagens instigantes, como esta:


Truffaut
A propósito, penso numa coisa que provavelmente é uma regra no seu trabalho: você só mostra a totalidade de um cenário na hora mais dramática da cena. Em Agonia de Amor, quando Gregory Peck parte, humilhado, nós o vemos indo embora, de muito longe, e pela primeira vez vemos o tribunal por inteiro, quando na verdade faz cinqüenta minutos que estamos ali.
Em Janela Indiscreta, você só nos mostra o pátio por inteiro quando a mulher grita, depois da morte do cachorro, e depois que todos os moradores aparecem na janela para ver o que está acontecendo.


Hitchcock
É sempre a questão de escolher o tamanho das imagens em função dos objetivos dramáticos e da emoção, e não simplesmente com a finalidade de mostrar o cenário. Outro dia, eu estava filmando um programa de uma hora para a televisão e via-se um homem entrando numa delegacia para ser preso. No início da cena, filmei o homem bem de perto, entrando, e a porta se fechando; ele se dirige a uma mesa, mas não mostrei todo o cenário. Disseram-me: “Você não quer mostrar toda a delegacia, para que as pessoas saibam que estamos numa delegacia?”. Respondi: “Para quê? Temos o sargento de polícia com três galões no braço e que aparece na abertura da imagem, basta isso para estabelecer que estamos numa delegacia. O plano geral poderá ser muito útil num momento dramático, por que desperdiçá-lo?”. Compartilhe no Facebook

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Kind of Blue



O jornalista Ashley Kahn disseca de maneira precisa e muito elegante a pré-história e as duas sessões de gravação do clássico de Miles Davis, de 1959. O livro mostra que a personalidade explosiva de Davis, um pouco de acaso e muito talento forjaram este discaço.

De quebra, fotos históricas e detalhes do lendário 30th Street Studio da Columbia, que era uma antiga igreja ortodoxa grega.
O ponto fraco fica por conta de comentários do tipo “até artistas pop foram influenciados por este disco”. Este “até” é um ranço que Miles Davis definitivamente não tinha, ao contrário de alguns fãs de jazz.


Kind of Blue: a História da Obra-Prima de Miles Davis - Ashley Kahn

O time de Davis:

Cannonball Adderley
Paul Chambers
Jimmy Cobb
John Coltrane
Bill Evans
Wynton Kelly
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sexta-feira, 16 de maio de 2008

José Maria


Personagens envoltos entre a overdose de informação, a fartura, o inchaço populacional, as relações superficiais, a miséria e as injustiças da cidade grande (Paris), em contraponto à tranqüilidade prosaica do campo (interior de Portugal), com sua rusticidade, lentidão, beleza e ...misérias e injustiças.

Seria alguma ficção de um autor pós-moderno descrevendo os dissabores dos nossos dias? Não. Apenas a pequena obra-prima A Cidade e as Serras, de José Maria Eça de Queiroz (1845-1900), editada pela primeira vez em 1901.

Um iluminado esse Eça.

De Jacinto só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas à pressa por entre o tumulto da Civilização. Depois, num Setembro muito quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu, tão quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia a roupa do luto. A minha afilhada Joaninha casou na matança do porco. Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.
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terça-feira, 25 de setembro de 2007

Pitacos de bacalhau



No seu Le Grand Dictionnaire de Cuisine (1873), o escritor francês Alexandre Dumas discorre sobre a base da cozinha (não só) do século dezenove e, entre receitas e verbetes gastronômicos, deixa vazar sua verve de um humor finíssimo. Sobre o bacalhau, me saiu com essa:

"Gênero de peixe da família dos gadiformes. Sua fecundidade é proporcional à sua voracidade. Em um bacalhau de grande porte, é verdade, pesando 32kg, foram encontrados entre oito milhões e meio e nove milhões de ovos. Especulou-se que, se nenhum acidente detivesse a eclosão daqueles ovos e se todos os filhotes atingissem o tamanho da mãe, bastariam três anos para que o mar fosse tomado por eles e pudéssemos atravessar o Atlântico sobre ombros de bacalhaus".

Por falar em bacalhau, outro dia me pus a fazer um risotto experimental para os amigos. Depois de dessalgado, cozinhei um pouco o peixe numa panela com leite e uma folha de louro, antes de desfiar. Depois de desfiado, fritei rapidamente no azeite com muito alho-poró cortado em lâminas milimétricas e pimenta-branca moída na hora. Adicionei tudo ao quase-final do risotto. Gostei.

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sábado, 28 de julho de 2007

Érico Veríssimo encontra Orson Welles



Mais um pitaco interessante de Gato Preto em Campo de Neve, o livro de Érico Veríssimo sobre sua viagem aos EUA em 1941, já comentado aqui. Em dado momento ele sai para jantar com outros escritores e nos conta:


"A sala do Voison está cheia...Orson Welles e Dolores del Rio se econtram também aqui em doce idílio. Welles, que muitos saúdam como a um jovem gênio, terminou em Hollywood o filme Citizen Kane que parece ser uma biografia satírica de Hearst, o magnata da imprensa...

Orson Welles e Dolores del Rio se aproximan de nossa mesa...Dolores é muito mais simpática pessoalmente do que no cinema...Orson Welles - alto, forte e testa redonda - é um homem afável. Apesar da máscara risonha, noto cansaço nos seus olhos escuros".


Mal sabia Érico que Welles e seu Cidadão Kane mudariam a história do cinema para sempre.
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quinta-feira, 10 de maio de 2007

Gato preto em campo de neve




Em 1941 Érico Veríssimo fez uma viagem aos EUA por 3 meses. Resultou no interessantíssimo Gato Preto. Na viagem de navio, vai descrevendo com muito sarcasmo e até alguma simpatia os personagens que vão passando à sua frente. Vejam o trecho, se não é uma pequena obra-prima:

É esguia, branca, misteriosa e se parece com Greta Garbo. Passa os dias fechada no camarote com uma garrafa de uísque. (Informação do camareiro indiscreto).
À noite aparece no salão de festas, exibindo lindos vestidos decotados e uma postura majestosa. Não sei como se chama, nem de onde vem e para onde vai. Depois do show ou da sessão de cinema, enfurna-se no bar. Vários admiradores pagam-lhe champanha. Dizem-lhe galanteios ao ouvido. Fazem-lhe propostas atrevidas. Ela escuta tudo, impassível e empertigada, com um rosto sem paixão. Fala-se vagamente que ela ama o rapaz que come agulhas e que ambos se encontram depois das duas da madrugada, haja ou não luar.
Lá vai ela atravessando o salão, toda de branco, vaga como um véu, hierático como uma sacerdotisa. E a gente fica sem saber se ali há mistério ou apenas estupidez.
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sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Marcha a ré


Lendo o impressionante livro do escritor francês Jean Genet (*), que militou entre os fedaim nos anos 70, me faz pensar na situação atual dos palestinos. Quando vejo Israel destruir o sul do Líbano ou então matar civis por causa de alguns "problemas técnicos", me parece que a situação de hoje é muito pior que há 30 anos, data do relato. Se na época ainda havia a esperança de uma revolução, agora esse povo que foi inexplicavelmente deixado sem terra, que vive de favor em plagas alheias, deve estar à beira do colapso (ou da guerra sem fim).
Na primavera de 1971, Genet teve o seguinte diálogo com um oficial argelino, que lhe perguntou:
- No fundo, quem é o senhor?
- Um amigo dos palestinos. Do povo e dos fedaim. E o senhor?
- Oficial argelino. De seu ponto de vista, esta guerra entre Israel e os árabes vai durar quanto tempo?
- Não sei. Talvez mais cinco anos.
- O senhor pode dizer cento e cinquenta anos.

(*) Um Cativo Apaixonado (1986) - Jean Genet (1910-1986). Compartilhe no Facebook

domingo, 25 de junho de 2006

O homem que comeu de tudo


O americano Jeffrey Steingarten abandonou a carreira de advogado para se tornar um impetuoso crítico gastronômico. Escreve há anos na revista Vogue e seus artigos foram compilados em dois livros de nomes bem sugestivos: "O homem que comeu de tudo" e "Deve ter sido alguma coisa que eu comi". Li há um tempo o primeiro e pude constatar a maneira peculiar de Jeffrey falar sobre comida. Na verdade ele não só fala sobre, como às vezes faz verdadeiras experiências científicas sobre determinado assunto. É capaz de descrever um tratado sobre purê de batatas ou fazer uma degustação sobre ketchups (até criar um próprio), viajar até à Sicília para saber o segredo da granita ("a mãe de todos os sorvetes"), analisar a água de várias origens e engarrafar a sua, fazer uma declaração de amor às frutas maduras ("uma fruta madura quer ser comida"), ir à França, Japão, Itália, Marrocos ou até a esquina mais próxima para ver como é a batata frita do boteco. O livro é uma viagem ao redor do mundo e uma ode ao prazer de comer, com simplicidade e categoria, como deve ser toda comida. Compartilhe no Facebook